Arpoador – Verão Infinito

 

Por Cal Gomes
Fotos: Fedoca, Rodrigo Molina e Júlio Ferrez

Em, pelo menos, dois aspectos, guardadas, ou não, as devidas proporções, o Arpoador está para Ipanema como o Vaticano está para Roma.

Primeiro: para o turista que vem visitar e conhecer Ipanema, é um pecado não dar um pulinho até o Arpoador e não subir pelas suas tão famosas pedras para contemplar e fotografar o pôr do sol mais famoso do planeta. É quase o mesmo que ir a capital italiana e não dar uma passada no Vaticano para ver o Papa Francisco.
Segundo: o Arpoador se tornou independente, com vida própria, com luz própria, com importância própria, como o Vaticano em relação a Roma. Está ali, lado a lado, separado por alguns metros do bairro principal, mas é dono do seu próprio nariz. Se governa sozinho.

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Aérea do Arpoador. O paraíso é aqui. Foto: Rodrigo Molina

O primeiro “ser urbano” que descobriu o Arpoador e divulgou a sua beleza para o resto da cidade, no seu livro A Chave de Salomão, lançado em 1914, foi o poeta Gilberto Amado. Alguns anos depois, o cronista e jornalista João Paulo Emílio Cristovão dos Santos Coelho Barreto, o João do Rio, também escreveu, em um jornal da cidade, sobre aquela visão do paraíso que qualificou como “paisagem lunar”. Mas o carioca daquela época ainda não se sentia motivado e entusiasmado em atravessar estradas de barro, rochas, vegetação pesada, para ver de perto o que os poetas lhe narravam. ..e se deslumbrar.
Só a partir da década de 30 que os pioneiros moradores de Ipanema começaram a dar as primeiras caminhadas em direção ao Arpoador para se refrescarem nas águas calmas e caribenhas que formam a gigantesca piscina natural. E não deve ter demorado muito para que descobrissem que a escalada daquelas rochas descortinaria a vista panorâmica de uma Ipanema ainda selvagem e da beleza estonteante das cores do pôr do sol se escondendo atrás dos gigantes Dois Irmãos.

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Arpoador cheio e feliz em 1969. Foto: Fedoca

Com a chegada dos primeiros imigrantes europeus a Ipanema – alemães, franceses, dinamarqueses, ingleses, entre outros – na metade dos anos 30, o Arpoador começou a ficar mais conhecido e movimentado. E foram os filhos deles que ao se misturarem aos nativos da região deram início a fama de ser um oásis de liberdade e democracia que se fortaleceu nos anos 40 e 50, se consolidou na década de 60 , atingindo o seu auge durante a de 70. Por tabela, essa mistura foi a responsável pelo nascimento da sensualidade típica e espontânea que deu fama e charme ao bairro e aos ipanemenses.

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O super campeão Kelly Slater competindo nas águas do Arpoador em 2011. Foto: Rodrigo Molina

E foi um imigrante, o italiano Arduino Colasanti, que se tornou o primeiro líder natural dos costumes culturais e esportivos que acrescentou ainda mais fama ao Arpoador. Nos anos 50 e 60, o atleta com pinta de galã que deixava derretidas as moças de Ipanema e adjacências, comandou uma nova geração de ipanemenses apaixonados por esportes e pelo mar. Porém, claro, ele não fazia ideia de que seria o percursor do grande símbolo que revolucionou aquele pequeno pedaço de praia marcado por areias brancas e finas, águas claras e verdes e pedras gigantes e arredondadas: o surf.

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Juventude dourada desfilando no Arpoador. Verão de 1969. Foto: Fedoca

E foi esse esporte radical que começou a divulgar o nome do Arpoador para o resto do Brasil e do mundo no inicio da década de 70. Ao “cavalgar” as ondas do Arpoador, naqueles românticos anos 60, montado em sua improvisada, improvável e rústica prancha de madeira, o ipanemense, nascido em Livorno, dava início a uma maravilhosa geração de jovens surfistas cariocas que transformariam o esporte no que ele é atualmente: famoso, competitivo e respeitado.
Hoje, quando inúmeros talentosos surfistas brasileiros se espalham pelos mares do planeta, conquistando etapas, torneios e campeonatos, todos eles, e a mídia esportiva mundial, deveriam prestar homenagens aos primeiros desbravadores e domadores das ondas da praia brasileira que deu origem a todo esse estrondoso sucesso: os surfistas do Arpoador. Ou, para radicalizar como os próprios “brôs” locais, deveriam criar uma lei que os obrigassem a seguinte deferência: Dura lex, sed lex…gratus Arpex.

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A lenda Roni Veloso destruindo as ondas do Arpex! Foto: Rodrigo Molina

 

 

 

 

Passeio no Arpoador em 1918. Foto: Júlio Ferrez