Para Lembrar Leila

 

Por Angie Diniz
Foto: Nelson di Rago e David Zingg

 

Em 14 de junho de 1972, a musa libertária saía da vida e entrava para a história. Uma pane no avião durante o retorno de Leila ao Brasil depois de participar de um festival de cinema na Austrália provocou um abalo sísmico na geração sessentista. Entre os escombros do acidente que retiraria a garota da Banda de Ipanema dos braços da filha de sete meses e da convivência dos amigos, uma frase inacabada no diário pessoal era o prenúncio da despedida: ” Está acontecendo uma coisa muito es…”

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Nunca foi fácil para as mulheres, e para Leila não seria diferente. Entre movimentações políticas e palavras mal interpretadas, o maremoto que tomava conta do Posto Nove exibia as curvas e celebrava num biquíni a gravidez de Janaína, nome dado em homenagem à rainha do mar que a encantava intensamente. Aliás, intensidade era sua palavra de ordem. A ausência de nós e de conformismo, na bela revolucionária, despertava a censura despudorada e o pudor irrestrito daqueles que se assustavam com a sinceridade de suas palavras desmedidas. Ela passeava entre os limites do julgamento social. De um lado, achincalhada por jurados do programa do reacionário Flávio Cavalcanti na extinta TV Tupi. Do outro lado, exaltada em versos por Carlos Drummond de Andrade, que seria sua Leila Para Sempre Diniz.

 

A célebre entrevista ao Pasquim foi prova irrefutável de seu desejo de liberdade. Representou um escândalo para a sociedade da época e flechada certeira na ferida moral dos militares. O que Leila queria era poder ser ela mesma, mas teve seu direito anulado. Não desejava mais do que o grupo de mulheres nordestinas que, no fim do século XIX, reivindicou a liberdade de voto, anulada por uma comissão do governo depois de terem recebido o aval de autoridades para votar.

As ideias fertilizavam as areias de Ipanema e os pontos de encontro do descontentamento político de artistas e intelectuais antigolpe. Partidária da revolução, a professorinha de Drummond, que ensinava ” a crianças, a adultos, ao povo todo a arte de ser sem esconder o ser”, compartilhava as angústias da repressão nas mesas do Zeppelin e do Varanda, onde o sectarismo ideológico era debatido. Nas mulheres do período, a atriz do Cinema Novo despertava um misto de admiração e recalque, heresia e avant-garde, e, para os homens, era a companhia feminina perfeita para uma conversa regada à bebida.

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Rita Lee conta a experiência quase platônica que teve ao esbarrar com Leila nos bastidores da TV Globo. ” Passou por mim vestida de noiva dando uma piscada marota, dei meia volta no ato e segui a apressada coelhinha até o estúdio onde descolei um canto para assistir à gravação”, diz o texto-testamento no site da cantora. Enquanto esperava para entrar em cena com os Mutantes, Rita cruzou com a musa mais uma vez nos corredores e recebeu de presente o vestido de noiva que ela havia acabado de usar na novela O Sheik de Agadir. ” Garanto que vai lhe dar a maior sorte”, vaticinou Leila.
Mais tarde, a “coelhinha” viraria “Todas as Mulheres do Mundo “, canção nascida da parceria entre a própria Rita e Erasmo Carlos, e “Toda mulher é meio Leila Diniz”, nas páginas do livro da antropóloga Mirian Goldenberg. Desde que partiu, há 30 anos, não parou mais de inspirar obras e mulheres pelo Brasil.

Angie Diniz é jornalista