Da Tanguinha ao Apitaço

 

Por Leticia Rio Branco
Foto: Rodrigo Molina

Foi necessário somente um trecho da extensa praia de Ipanema para entrar na história. O conhecido Posto 9, símbolo sexual de turistas e admiradores nem tão secretos, foi palco para todos os tipos de revoluções que se possa imaginar.

Posto nove

Os anos 50 viram e ouviram a consagração da bossa nova, a beleza mais cheia de graça da garota de Ipanema e os ícones do movimento, os gênios Tom Jobim e Vinícius de Moraes, que cantarolavam suas canções na beirinha do mar.

Nos contestadores anos sessenta, a saudosa musa Leila Diniz foi a primeira mulher a desfilar toda a plenitude de sua gravidez num biquíni, fato que acentuou o surgimento do feminismo carioca. O jornalista ativista Fernando Gabeira também não perdeu tempo: aproveitou a onda do tropicalismo inaugurada por Gis e Caetanos, não hesitando ao desfilar com uma vestimenta inusitada: uma tanga de crochê.

A liberdade de expressão e a convivência entre as diversas tribos sempre foi a característica mais marcante do local.

O Píer, construído na década de 70 em frente à rua Farme de Amoedo pela Cedae, acabou por tornar-se o pico ideal para os surfistas mais afoitos pelas ondas perfeitas. Mas a alegria durou pouco, para tristeza dos desabrigados.

Mas não demorou muito para que o fio dental e o topless eclodissem das escaldantes areias nos anos 80. Entre purpurinas e paetês, a geração que “inaugurou” a AIDS “apertava uns” e discutia “uns outros”. Os assuntos? Futebol, política e religião. Ou qualquer outra coisa que fizesse pensar. Viajar.

Muita coisa mudou com a chegada dos anos 90. Durante o governo do presidente Fernando Collor, o pedaço mais famoso da praia de Ipanema sofreu com a violência. Funqueiros saíram das favelas de Vigário Geral e Parada de Lucas e fizeram da areia o ringue. Dos frequentadores, as vitimas. Um confronto que comprometeu a paisagem.

E quando todos achavam que nada mais aconteceria na praia urbana de areia fofa, o “apitaço” veio para calar a boca de muita gente. As rodinhas de consumidores da erva canabis sativa alertavam a galera através de apitos quando os policiais apareciam. Mas nada que apagasse a fumaça típica do trecho mais descolado do bairro. Afinal, onde há fumaça…

Com a chegada do século XXI, os tão esperados anos 2000 e os seus avanços tecnológicos, nenhuma moda relevante ou novidade comportamental invadiu as areias do Posto 9. O que vemos hoje é o espaço mais famoso das praias do Rio recebendo, cada dia mais, turistas de todos os lugares do país e do planeta, mas, certamente, logo logo, quando menos se espera, algo novo despontará confirmando e reafirmando a fama de que além de ser o Posto 9  o lugar aonde tudo acontece entre as praias cariocas, é ali, naquele pequeno “pedaço” de areia, que sempre acontece pela primeira vez.

Leticia Rio Branco é jornalista

*Posto 9 é o primeiro de vários outros famosos points de Ipanema, atuais e do passado, que serão retratados aqui em textos e crônicas especiais.