Simples e Preciso

 

Por Daniel Braga
Fotos: Veja, O Globo e Folha de São Paulo

 

Quis o então governador estadual Sérgio Cabral que Rubem Braga em Ipanema fosse Complexo. E para tanto investiu R$89.000.000,00 junto a Odebrecht Engenharia e Construção S/A. Antes da existência desta obra, os moradores do Morro do Cantagalo, vizinhos do cronista, eram obrigados a enfrentar centenas de degraus em escadarias íngremes e ladeiras sujas, à beira de um penhasco, até chegarem às suas casas.

Rubem 1
De sua cobertura, o cronista observa o mar de Ipanema.

O Complexo abriga o Espaço Criança Esperança da Rede Globo, o AffroReggae, o projeto Dançando para não Dançar e o CIEP Presidente João Goulart, da Secretaria Municipal de Educação. Paradoxalmente, apesar da permanente atividade cultural, da estrutura, da projeção e da atenção política ao longo do governo Cabral, a escola municipal de Ipanema foi a que teve pior desempenho no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) entre as 970 avaliadas da rede municipal do Rio, 1,8 nos anos finais do Ensino Fundamental e sua atuação também não foi nada boa nos anos anteriores. Sem educação não há homenagem, memorial ou complexo que segure a importância e legado de quem quer que seja.

Rubem 2
Com os correspondentes de guerra da FEB em 1944 – Primeiro à esquerda e em pé.
Com os amigos e escritores na famosa cobertura em Ipanema: Sentados – Rubem Braga, José Carlos Oliveira, Vinícius de Moraes. Em pé – Paulo Mendes Campos, Sérgio Porto e Fernando Sabino.

Estaria fadado o Sabiá da Crônica a ser esquecido pelos seus vizinhos e apenas ser nome de Elevador, como o Lacerda de Salvador? Não sei, o futuro dirá. Por enquanto, o Velho Urso ainda ronda o imaginário de muitos que moram no Bairro e diversos que leem suas crônicas, biografia, livros e artigos que ele seja tema ou citado. 
O Rubem Braga que plantou seu jardim suspenso no ar não pertence a ninguém que não Ipanema. E só Ipanema é dona deste Rubem Braga. Suas histórias de boemia, encontros e desencontros na sua afamada cobertura no prédio ao lado de onde hoje é o Complexo, no antigo e finado bar Antonio´s, nas praças General Osório e Nossa Senhora da Paz e seus passeios solitários na areia à beira-mar são o prenuncio de mitos urbanos.
Rubem gostava de a noite mostrar o visual da varanda de sua cobertura para algum amigo intimo, geralmente uma mulher, e dizer muito sério a seguinte brincadeira: “Olha só: meu
trabalho está feito. Está tudo no lugar.” E estava
tudo no seu lugar. O sol havia se pôs, a lua chegara, as estrelas estavam presas no céu e o barulho do vento, o movimento das nuvens e do mar estavam prontos. Simples e preciso como apenas Rubem Braga foi e sempre se esforçou para sê-lo. Simples, preciso e nada “complexo”, me desculpe senhor ex-governador, Rubem Braga não gostava de ser chamado de escritor nem mesmo de cronista, dizia ser um jornalista que escrevia crônicas.
Simples e preciso.

 
Daniel Braga é artista carioca de 42 anos , trabalhando como ator, jornalista, diretor e preparador de atores e produtor. É também Geek de mitologia, livros de fantasia, RPG e Quadrinhos e dedica suas sextas feiras a Oxalá . Além de ser um dos quatro netos de Rubem Braga , também é neto dos falecidos Zora Seljan, escritora, dramaturga e jornalistas e seu avô-drasto Antonio Olinto , além do seu avô materno General Lauro Augusto de Medeiros , fundador ao lado de Roberto Marinho da TV Globo . Daniel preza muito o legado e memória de seus ancestrais antigos e próximos e é apaixonado pela praia de Ipanema , o mergulho noturno no “Arpex” , o ir ao Estação Ipanema , do rodízio do Lapamaki da Vinicius, de comprar na Point HQ e morre de saudades do Fran’s Café e do Letras e Expressões.

 

Cobertura de Ipanema conservada e mantida intacta por familiares de Rubem Braga

 

cob2cob4cob3