A Sociedade nos Tons do Tom

 

Por Carlos Alberto Afonso
Fotos: Glaucon Fernandes, Cartier-Bresson e Dacio Malta


Em 1994, pouco antes de seu coração parar, ainda aqui no Rio, Tom Jobim concedia entrevista exclusiva a um trio de pirralhos universitários, que preparavam a derradeira edição de um Projeto de comunicação – jornal em formato tablóide –  chamado ‘Jornalzinho’  e que já focalizara, ao longo daquele mesmo ano, nomes como Ronaldo Bôscoli, Os Cariocas, Luis Carlos Vinhas, Vinicius de Moraes, Carlos Lyra, Toquinho, Quarteto em Cy, Dorival Caymmi.

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Tom Jobim nasceu e viveu sempre em Ipanema. Naquele ano de 1927, quando viera à luz, Ipanema ficava na Tijuca. Logo mais adiante, Tom mudou de bairro e Ipanema ficou sendo em Ipanema mesmo. Até quando esteve em Copacabana, Ipanema era lá. E, além de Ipanema fazer turnês pela serra do Estado do Rio, por Los Angeles e Nova Iorque, Ipanema foi parar no Jardim Botânico. Mas não há qualquer dúvida de que o soberano Maestro Soberano, em sua busca Indiana Jones, não identificava no espaço, mas sim, no Tempo, a Ipanema Perdida. E seu apego pelo Jardim Botânico e pela Serra  era o vínculo das raízes.  Aquele espaço em que foi menino, em que foi rapazinho, adolescente e primeiro adulto resolvido, era o espaço pequenino, com água a perder de vista, onde sentava na calçada de casa, com um dos pés no mar do Arpoador, onde namorava uma arraia e o outro pé, na Lagoa, onde nadava lado a lado com a imperecível  lontra.

Assim, nada chamara mais a atenção de seus jovens entrevistadores do que o claro estado de fusão em que viviam o entrevistado e a Terra proclamada. As imagens sempre surpreendentes através das quais exercitava sua inteligência e inundavam o ambiente com o mais fino humor se construíam – em grande parte – a partir de Ipanema. Nele, o “ENTERREM MEU CORAÇÃO NA CURVA DO RIO PEDRA” se transformava em “QUANDO EU MORRER, ENTERREM MEU CORAÇÃO NAS AREIAS DE IPANEMA”. E nele, Ipanema era o próprio Paraíso Perdido, mas, de que jamais desistiu.

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Pois, naquele mesmo 1994 em que prestigiava os três adolescentes com atenções que nada deviam às da grande mídia, sua Ipanema completou 100 anos de organização urbana e a Rede Globo de Televisão dedicou uma edição do Globo Repórter inteira ao centenário do bairro. O Garoto de Ipanema foi o paradigma do homo ipanemensis, disponibilizando um bom pedaço da manhã para a gravação de sua participação. A locação não poderia ter sido outra : o ex-Bar Veloso, já, então, há muito, Bar Garota de Ipanema. E lá estavam compondo a mesa outros nomes célebres da comunidade, dentre os quais, a Garota de Ipanema (Helô Pinheiro), Lygia Marina, Paulo Góis e o Instrumentista e compositor Carlos Lyra. Tom estava impossível. Humor a todo pano. Sacadas fenomenais. E nenhum de nós poderia prever que, ainda, naquela 1994, Tom estava vivendo seu último aniversário de Ipanema.

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Tais lembranças não escolhem momento. São tão permanentes quanto nosso bater de coração. Mas uma circunstância muito especial – a recente visita de Thomas Piketty ao Brasil, neste final de 2014, se avizinha ao 20º aniversário de tudo isto que revivemos nos parágrafos acima. Thomas Piketty é autor do festejado livro ‘O Capital no Século XXI’, reverenciado pela crítica internacional e nacional, incluindo alguns quadros mais comumente ácidos. E nesta sua recente visita ao Brasil, dedicou a palestra proferida em São Paulo à questão central da ‘desigualdade’, como não poderia deixar de fazer. Não pestanejei em, imediatamente, fazer contato com a equipe de ex-pirralhos daquele JORNALZINHO, que, lá no primeiro parágrafo entrevistara o TOM, para acentuar-lhes, além do vaticínio poético, o alcance profético do extraordinário reformista que evangelizou pela canção e pela música que a canção materializava. Mas que não deixava de fazê-lo, também, pelo blague, pelo papo de botequim, tudo ao alcance do apostolado. Perguntei aos meus jornalistas se poderiam imaginar TOM JOBIM se antecipando em 20 anos ao Marx francês do século XXI – como alguma mídia reconhece Piketty. E, felizmente, nenhum dos três desperdiçou a chance. Lembraram no ato. “Pois é, pai – cada qual com suas palavras – naquele Globo Repórter de 1994 ele (TOM) mexeu em cheio na ‘desigualdade’, né ?” Lembraram-se – e creio que não esquecerão jamais – das palavras de TOM, que transcrevo aqui e agora : “ Eu disse, em 1789, que só haverá felicidade no Brasil, quando todo mundo se mudar para Ipanema”. Também, aqui, na questão da mobilidade redutora das distâncias sociais, Ipanema entra como o padrão de resposta de quem acredita que o ‘paraíso’ é tão bom, tão bom, que o devemos querer para todos.

Tom Jobim não faz falta apenas criando. Intelectual espontâneo, PENSOU como MUSICOU, sendo SIMPLES como dificilmente se pode ser quando se é, tão naturalmente SOFISTICADO, como, na verdade, foi.

Vou reler a entrevista daquela JORNALZINHO de 1994. Depois, conto.

Carlos Alberto Afonso é professor e produtor cultural