O Eterno Rei Momo de Ipanema!

 

Por Cal Gomes

 

Naquelas vésperas que antecediam o Carnaval, depois que fundou a Banda de Ipanema, Albino Pinheiro se transformava em uma “espécie” de governador de Ipanema. Tudo que envolvia o bairro, horário de funcionamento do comércio, feiras livres, coleta de lixo, troca de mão das ruas e fechamentos para o trânsito, praticamente passava pela opinião e quase que, exclusiva, decisão final do carnavalesco.
Advogado, cervejeiro, amante da boemia e da genuína cultura popular do Rio, esse carioca, torcedor do Fluminense e portelense apaixonado, só não se transformava, ainda mais, nesses dias de folia, porque já havia atingido o seu limite daquilo que já o era no resto de todos os dias comuns do ano: um dedicado amante do carnaval e de tudo que estava relacionado às comemorações momescas.

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Albino Pinheiro com Isabelita dos Patins.
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Desfile da Banda de Ipanema nos anos 70.

Em 1965, Albino, um atento e criativo agitador cultural, se uniu a Ziraldo, Jaguar, e uma boa parte da turma do jornal O Pasquim, entre outros camaradas de copo e samba, e tornou realidade um sonho que cultivava desde 1959: fundar a Banda de Ipanema. A partir daquele ano, daquele carnaval, a história dos blocos de rua da cidade seria mudada, vivida e contada de uma outra maneira. E o carnaval no nosso pacato (na época) bairro, nunca seria o mesmo. Teria outra forma e conteúdo.
Hoje, quando milhares de foliões tomam conta das ruas do Rio, existe um pouco do muito de Albino Pinheiro em cada um deles. A alma alegre, festiva e animada do carnavalesco invade o coração dos que se divertem pelas ruas e avenidas não só de Ipanema. Não importa se o folião é um cidadão carioca ou um desajeitado turista dinamarquês. O que conta, para valer, é se a essência da verdadeira, sincera, maneira de se divertir, durante todos esses dias de festa e descontração, descoberta e aprimorada por Albino, está presente.
Desde aquele primeiro carnaval de 50 anos atrás, até o seu último, em 1999, quando nos deixou aos 65 anos, Albino Pinheiro se entregou, apaixonadamente, ao, talvez, maior amor de sua vida. A Banda de Ipanema. E neste carnaval, quando ela comora 50 anos, o bairro e toda a cidade têm todos os motivos para homenagear “criador e criatura”.
Se durante todos esses dias de euforia carnavalesca, o nosso pequeno bairro fica extremamente barulhento, agitado, confuso, transbordando pessoas de todos os cantos do Rio, do Brasil, do mundo, não importa. Se os foliões de hoje, em sua boa maioria, não possuem um comportamento ideal quando se divertem, sujando e depredando as nossas ruas, não vivendo e curtindo o carnaval como na época de ouro, clássica, da Banda de Ipanema quando ela estava sob o comando do seu grande maestro e fundador, relevemos. Porque, afinal, o que está valendo mesmo é que o sonho que Albino Pinheiro sonhou, naquele final dos anos 50, se materializou e permaneceu vivo e pulsante até hoje.
O nosso eterno Rei Momo de Ipanema, e alguns dos seus melhores fiéis escudeiros, como Ferdy Carneiro, Hugo Bidet, Hugo Carvana, Caio Mourão, Leila Diniz, Roniquito Chevalier, João Saldanha, Glauber Rocha, Carlinhos Oliveira, Millôr Fernandes, Zózimo, Délia e Laura de Carvalho, não estão mais entre nós, mas existe, durante o carnaval, para os ipanemenses, verdadeiramente de alma e coração, um sentimento de que todos esses personagens, e tantos outros, famosos ou não, estarão sempre presentes quando a Banda de Ipanema passar pelas ruas do bairro conduzindo aquelas famosas palavras, até hoje indecifradas, na faixa que é estendida em sua comissão de frente: Yolhesman crisbeles!
Viva Albino Pinheiro! Viva a Banda de Ipanema!

 

Clique aqui e veja imagens históricas de diversos desfiles da Banda de Ipanema.

 

Matéria do Jornal Nacional sobre o aniversário de 30 anos da Banda de Ipanema, [br] no carnaval de 1994, com imagens de Albino Pinheiro ao lado de Tom Jobim.