Houve Uma Vez Um Pier

 

Por Olivio Petit
Fotos: Veja Rio Arquivo e O Globo Arquivo

No início dos Anos 70, o Rio de Janeiro era a síntese do país tropical abençoado por Deus. Os festivais de música embalavam a recente conquista do tricampeonato mundial de futebol, transformando a Cidade ainda Maravilhosa num grande estádio de alegria permanente, apesar de lá fora o pau comer solto.

pierIpanema era um pedaço de bom caminho entre a Lagoa Rodrigo de Freitas e o Oceano Atlântico. Os espigões já começavam a fazer sombra na praia, mas a garotada ainda balançava docemente a caminho do mar. As favelas, que abrigavam a mão de obra da especulação imobiliária, faziam jus ao bairro, com seus belos nomes: Cantagalo, Pavão, Pavãozinho… As praças sorriam para as crianças, que sorriam para um mundo colorido, sonoro, com um cheiro delicioso de maresia misturado com catchup do Geneal. Tudo era divino, maravilhoso. Os terrenos baldios, as tardes sem fim, as blitz da policia do exército, a coca-cola batida no sorvete de flocos, a loura dos assaltos a bancos, os amassos no ar condicionado dos cinemas, os amigos que sumiam “sabia-se bem porque”, o sundae com hot-fudge no Bob´s, o som inaudível do sol se pondo no mar. Realmente estava comprovado: tinha banana na banda.

O bairro crescia na razão da fama e do que descia pelos ralos das casas dos seus 51 mil habitantes. A poluição começava a ser discutida e a se subdividir: do ar, visual e da água – fosse ela salgada ou doce. Era preciso administrar essa porcariada toda. Alguma coisa tinha que mudar e surgiu o interceptor oceânico. Um emissário submarino mandaria os dejetos humanos pra lá das 200 milhas. Emissário submarino ou interceptor oceânico não eram palavras que pudessem ser absorvidas pelo linguajar carioca. Importou-se um nome que entrou para a história da cidade: Píer. Em português de dicionário: pilar, ponte. Mas esse píer tinha um dado na sua construção que faria uma grande diferença na formação das ondas em Ipanema. E ele foi fundamental para a prática de um esporte pronto para virar notícia. Aos surfistas somaram-se artistas de todos os credos e raças. Daí chegaram as gatinhas, os playboys e os gays. Estava criada a encubadeira perfeita para a versão moderna do tal “crescei e multiplicai-vos”.

foto11Não demorou muito para que o Píer se transformasse num lugar onde gente jovem, bonita, elegante e sincera podia se reunir, sob a proteção do Astro Rei e longe da caretice. Caretas eram todos os que gostavam de enquadrá-los como um bando de drogados, desocupados e filhinhos de papai. Como uma turma que, de maneira alguma iria conspirar ou influenciar e, até mesmo, desenvolver alguma nova teoria maligna de esquerda, ou possibilitar a tomada do estado por uma falange do mal. E os caretas, paradoxalmente, liberaram geral o pedaço. Mesmo que de vez em quando excursionassem por lá, tendo como guia turístico o temido delegado Nelson Duarte.

Estava criado o caldeirão cultural que misturou todos os temperos do improviso, para desafiar os manuais de sobrevivência impostos pelo status quo. As Dunas do Barato marcaram a história de uma geração artística carioca, que resistiu culturalmente à ditadura militar com alegria, criatividade, orgulho e a capacidade incrível de substituir, imediatamente, o vazio deixado pelos artistas que tiveram que partir para o exílio, voluntário ou não. Seus frequentadores colocaram no dicionário da cidade a palavra “alternativo”, com seus poetas de mimeógrafo, cineastas de super 8, biquínis de crochê e invadiram os palcos dos teatros com peças e shows musicais trabalhados nas areias de Ipanema.

O Pier pode ser considerado como a  Santa Ceia do Estado da Guanabara. O Baile da Ilha Fiscal do Desbunde. Fora, quase quatro anos de um carnaval que, infelizmente, teve hora para acabar. Mas deixou como tradição, um jeitinho de ser feliz de qualquer jeito possível, menos o imposto pelas regras e costumes de quem, felizmente, estava de saída.

Olivio Petit é jornalista, documentarista, está finalizando a série de TV “Dunas do Barato” e realizou “Brasil Surfe.Doc”, maior bilheteria entre os filmes nacionais no Festival Internacional do Rio de Janeiro de 2012.