Te amo, Espanhola! Te amo, Ipanema!
Nascido em Barra, região do Vale de São Francisco, interior da Bahia, Guttemberg Nery Guarabyra Filho, o Guarabyra, hoje residindo em São Paulo, ainda sente saudades e se lembra, com carinho, daquela Ipanema em que viveu, intensamente, nos doces, mas perigosos e rebeldes anos 70.
Quando veio morar no bairro, no fim da década de 60, o músico não era apenas mais um dos vários “ilustres desconhecidos” que chegavam na cidade atrás de fama e sucesso. Na bagagem, o jovem Guarabyra trazia o prêmio do famoso Festival Internacional da Canção, FIC, conquistado em 1967, com a canção Margarida, e as rádios não cansavam de executar Casaco Marrom, na voz de Evinha, que compôs em parceria com Renato Corrêa, dos Golden Boys, e Danilo Caymmi.
Logo adiante, formou o Sá, Rodrix e Guarabyra, com o trio lançando, em 1972, o ótimo álbum Passado, Presente e Futuro e, consequentemente, mais sucessos foram alcançados, enquanto, nas horas vagas, curtia os bares e a já agitada vida cultural e boêmia de Ipanema. Em seguida, o trio se desfez, mas a dupla com Sá permaneceu forte e vieram novas vitórias: os lançamentos, em sequência, dos álbuns Nunca (74), Cadernos de Viagem (75), o aclamado pela crítica Pirão de Peixe com Pimenta (77), que contem os sucessos Sobradinho e Espanhola, e Quatro (79).
Por e-mail, Guarabyra trocou altos papos com o Ipanema View e nos contou um pouco dos seus anos no bairro, de música, da sua vida artística, e de como Ipanema teve participação fundamental na história e na inspiração para escrever a letra de um dos seus maiores sucessos: Espanhola.
Por Cal Gomes

Ipanema View: Quando, exatamente, você se mudou para Ipanema? E qual foi o motivo principal que te trouxe ao Rio e, especificamente, ao bairro?
Guarabyra: Infelizmente sou ruim de datas. Toda vez que estamos numa coletiva e a pergunta se refere a datas, peço socorro ao parceiro, Sá (risos).
Mas podemos fazer um cálculo aproximado. Como me casei em 68 e morei cerca de ano e meio em Copacabana (por coincidência na rua Barão de Ipanema), e daí fui morar na Barão da Torre, acho que cheguei a Ipanema no comecinho de 1970. O motivo oficial foi o nascimento do primeiro filho. Precisávamos de um apartamento maior. Mas, mesmo antes do nascimento, eu e minha mulher sonhávamos em morar no bairro.
Ipanema View: No bairro, você morou em outra rua além da Barão da Torre?
Guarabyra: Depois da Barão da Torre fui morar na Alberto de Campos. Aí o motivo foi o fim do casamento. Dois grandes amigos dividiam um apartamento na Alberto de Campos, ambos jornalistas de esporte, Toninho Neves, hoje diretor de esportes da Rede Record, e José Trajano, hoje na ESPN. Alberto de Campos 122. Um pequeno edifício, um apartamento por andar. Ocupávamos o térreo.
No mesmo prédio morava a namorada de um flautista amigo. Foi ela quem nos avisou que os vizinhos estavam de olho na gente, visto que um apartamento, naquela época, em que residiam cabeludos que recebiam outros cabeludos, em que rolava música e que também era frequentado por lindas gatinhas (entre elas as amigas Leila Cravo e Denise Dumont, futuras estrelas) não podia ser boa coisa, e que, por esta razão, planejavam nos denunciar a um famoso delegado antidrogas da época, que tinha um quadro no Programa Flávio Cavalcante sobre o combate aos “tóchicos”, como dizia.
Até que a denúncia aconteceu. A namorada do nosso amigo nos avisou da data em que se daria a blitz, nós na antevéspera fizemos uma enorme festa para nos despedir do lugar onde aconteceram tantas coisas boas, inclusive a formação de trio Sá, Rodrix & Guarabyra, e no dia seguinte (véspera da blitz) nos mudamos levando todos os móveis. Os policiais encontraram uma casa vazia. Acontece.

Ipanema View: Na época em que você viveu por aqui, qual era a visão que você tinha de Ipanema?
Guarabyra: Para nós, a delícia do Rio. Poucos edifícios, alamedas de árvores e muitas casas e bares repletos de amigos artistas. E todos nós uma juventude criadora e feliz, apesar de toda a ditadura que praticamente passava “lá fora”. Nada igual no Brasil.
Ipanema View: O que mais gostava do bairro naquela época e o que mais curtia fazer nas horas em que não estava compondo, gravando, fazendo shows?
Guarabyra: Das calçadas cheias de gente bonita. Não ia muito à praia. E dos bares, evidentemente, ponto de encontro de cabeças fervendo de ideias. Quantos filmes vi nascer naquelas mesas, quantas músicas, peças de teatro. No Zeppelin, numa mesma noite, Jaguar, Ferreira Gullar, Odela Lara, Sérgio Cabral, Nelson Motta, Leila Diniz…

Ipanema View: A parceria com Sá, praticamente, iniciou-se em um encontro quase que casual entre vocês na Praça Nossa Senhora da Paz. A história de como você teve a ideia da letra de Espanhola, uma das mais belas canções da MPB, é muito interessante e Ipanema também tem participação fundamental na criação, não é? Você poderia relembra-la para nós?
Guarabyra: Nós, o trio Sá, Rodrix e Guarabyra voltava da editora num Buggy quando o trânsito parou subitamente na Visconde de Pirajá. À frente avistamos soldados do exército misturados com PMs e policiais civis armados, dando busca nos carros. Um motorista ao lado avisou que ‘subversivos’ tinham assaltado um banco e a polícia buscava os assaltantes. Justamente aí, naquele momento, uma linda menina meteu meio corpo pra dentro de nosso carro, abriu a mão com diversos papéis de LSD e perguntou: “Estão a fim?”. Olhei o panorama e previ que ela seria presa logo. Perguntei quanto custavam todos. Ela se assustou, abriu seus lindos olhos, que eu veria pela vida muitas vezes, e disse “Nooossa! Todos?”. Gritei que tinha que ser rápido. “Quanto?” Ela deu o preço, eu meti a mão no dinheiro de um direito autoral que trazia no bolso, paguei e recolhi todos os ácidos. Conseguimos passar pela blitz, e como sempre detestei LSD, levei de presente para os amigos que toda noite lotavam o muito louco bar Pizzaiolo que ficava na antiga Montenegro.
Foi a noite mais longa que Campos, o fantástico proprietário, e os garçons viveriam. Dois dias mais tarde encontrei essa mesma menina dormindo na calçada em frente ao mesmo bar. A reconheci, e eu e Toninho Neves, que tínhamos alugado um apartamento (o segundo na minha vida na Barão da Torre) a acordamos e depois de um papo, que na verdade foi uma imensa bronca, a levamos para casa e acabamos fazendo uma grande amizade. Nunca tivemos um caso, fui inclusive padrinho de casamento dela, na marra, diga-se de passagem, já que me recusei a ir à igreja e, depois da cerimônia, ela, o noivo e muitas dezenas de convidados invadiu vestida de noiva o Pizzaiolo e refizeram a cerimônia lá para que o meu apadrinhamento pudesse ser oficializado.
Anos mais tarde, fui morar em São Paulo e num dia em que bebia um grande porre solitário, descobri que eu sempre fora na verdade um pouco apaixonado por ela — que era fruto do casamento de sua mãe com um trapezista espanhol de um circo que passara por Juiz de Fora e a levara com ela apesar de todos os protestos do pai. E assim, de porre, antes de ir pra minha casa, ali perto, ia a pé, acabei passando na casa de Flávio Venturini, que era tecladista de nossa banda na época, e ele me mostrou a música que tinha acabado de compor. Pedi caneta e papel e fiz a letra de Espanhola de uma só vez, sem parar para corrigir uma vez sequer. No dia seguinte havia esquecido até que tinha passado na casa de “Flavinho”. Foi quando ele me ligou para dizer que a letra tinha ficado ótima. Só aí lembrei.
Ipanema View: Você costuma voltar a Ipanema para matar a saudade do bairro e relembrar aqueles anos?
Guarabyra: Sempre. Gosto de andar e revisitar todos os lugares. São marcas de minha vida.
Ipanema View: Você concorda com a crítica especializada que afirma que Pirão de Peixe com Pimenta, lançado em 1977, é o melhor álbum da sua dupla com Sá?
Guarabyra: Concordo. E concordo também com a crítica que acha que outros é que são (risos).

Ipanema View: E como está a carreira? Quais as novidades?
Guarabyra: Muito trabalho. Agora estamos ensaiando um show chamado Encontro Marcado. Sá & Guarabyra, Flávio Venturini e 14 bis. Todos velhos amigos. A maioria participou de bandas nossas. Vamos estrear dia 8 de março no Palácio das Artes em Belo Horizonte e seguiremos para uma turnê nacional.
Guarabyra: Muito pobre em termos de criatividade mas com um mercado crescente. O que me deixa otimista. Mas as músicas que fazem sucesso estão muito aquém da qualidade daquela geração. Ontem mesmo estava comentando com um amigo que teremos um “apagão” impressionante quando essa geração que inspira até hoje a música de qualidade desaparecer, já que são quase todos da mesma idade e que, pela lógica, morrerão todos em datas próximas. Caetano, Gil, Edu Lobo, Milton Nascimento, Chico Buarque…
Guarabyra: Sim. É a única coisa capaz de permitir que novatos furem as “panelinhas” de forma rápida. Uma pena que nenhuma grande rede de televisão enxergue isso. Vai ver que até não interessa ameaçar o sistema de negócios já estabelecido que elas próprias representam.
Guarabyra: Finalmente resolvi reunir os textos em livro. Para lançamento em breve.
Guarabyra: Trabalhei para a ALN – Aliança Libertadora Nacional -, de Carlos Marighela (N. R: famoso líder guerrilheiro brasileiro nos anos 60). Morava num “aparelho” e guardava as armas e uniformes das forças armadas que usavam como disfarce, etc. Assim como transpunha para fita profissional as mensagens faladas que Marighela nos enviava para que os guerrilheiros invadissem rádios e pusessem as mensagens no ar. Aconteceu até um fato curioso que remete a Ipanema e ao bar Zeppelin. Como o pessoal assaltava bancos e sobrava muito dinheiro miúdo, difícil de passar, tive a ideia de perguntar aos gerentes do Zeppelin se precisavam de dinheiro trocado. Claro que sim. Inventei que tinha uma tia que trabalhava em Bangu (naquele tempo um bairro de indústrias têxteis) fazendo colchas de retalhos e que tinha sempre muito dinheiro miúdo. De modo que comecei a passar aquele dinheiro lá no Zeppelin. Mas uma noite foi inesquecível. O dinheiro que estava trazendo para trocar no bar, uma bolsa lotada, havia sido retirado do banco que ficava parede a parede com o Zeppelin. Fiquei por uns minutos observando a polícia lá dentro, já tarde da noite, realizando a perícia do assalto.
Guarabyra: Não. Não me vejo fazendo isso.
Guarabyra: De certa forma é a confirmação do conceito da música. O homem quando mexe com a natureza de maneira irresponsável acaba sendo vítima do desajuste que causa.
Abaixo “Espanhola” nas versões de Sá & Guarabyra e também com Flávio Venturini.






