Lifestyle Carioca: Coisa de Macho!

 

Por Hélio Ricardo Rainho

O lugar é Ipanema e o assunto é a moda! Em se tratando de Rio de Janeiro, é o bairro por excelência para se falar a respeito. Ipanema talvez seja o eixo mais importante de difusão da moda carioca no tempo em que entendia-se moda como algo muito diferente do que se compreende hoje. Sobretudo como se compreende a moda masculina, em particular.

unnamed (1)O que quero dizer com isso, especificamente? Primeiro, quero dizer que mudou a moda. Depois, que mudaram os homens.

Talvez a imagem masculina de moda mais conhecida do carioca seja a do chamado “menino do Rio”. Sim, o surfista de Ipanema: o menino praiano de chinelo de borracha colorido (a variação era o tênis de cano baixo), a camiseta com ou sem manga em cores e estampas tropicais, a bermuda de tactel (alguém ainda usa esse termo? hoje chamam mesmo de nylon ou “tecido sintético”). O look do carioca vinha com esse despojamento originado na praia. Mesmo as regiões distantes da faixa litorânea adotaram esse lifestyle, porque ele transcendia a areia, a água do mar e o sol: era a tradução não apenas daquilo que o “garoto zona sul” da orla de Ipanema vivia, mas o anseio do que todo garoto carioca idealizava. Isso num tempo em que a moda era, digamos, “mais unidirecional”, mais passível de impor padrões e modelos formais.

Vieram a tecnologia, a globalização, a diversidade. Passamos a vivenciar as redes de Manuel Castells, o ciberespaço de Pierre Levy, o hibridismo cultural de Nestor Garcia Canclini. Conectados, multidirecionais e plurais, os indivíduos do Novo Milênio deixaram de ter relações restritas, limites geográficos e representações locais. Todo mundo de todos os lugares e de todas as classes sociais passou a ver tudo! O antropólogo norte-americano Ted Polhemus falou sobre o fim das fashion victms e apontou o boom dos style victms: não era exatamente a moda com tempo calculado para ser “ditada” e “datada”, mas o estilo que nos tomaria de assalto. E esse estilo está em todo lugar: nas ruas, nos guetos, nas coleções e passarelas do mondo fashion, nos lookbooks de internet, no cinema, no tapete vermelho, nos shows de rock…em todos os lugares onde sempre esteve simultaneamente, mas não havia recursos para que pudéssemos contemplá-lo em tão poucos cliques de um smartphone na palma de nossas mãos!

Hoje, embora muitas leituras queiram dignificar um discurso de “classe C e modismo de periferia”, o que se percebe é a simples troca: não só Ipanema oferece moda para a cidade como também a recebe de pontos distintos da zona norte, da Baixada Fluminense, do mundo. Arrisco dizer que Mauro Taubman (Company) e Evandro Balesteros (Toulon) foram substituídos por Maxime Perelmuter (British Colony) e Oskar Mehtsavat (Osklen) no redesenho da Ipanema cosmopolita e eurobrasileira, elevando o lifestyle carioca a um diálogo multifacetado com novas tendências de todos os lugares.

unnamed (2)O “Menino do Rio” – protótipo XY da “Garota de Ipanema” XX – incorporou tantos elementos em sua forma de vestir que, hoje, ouve funk, rap e hip-hop de periferia; mescla streetwear com seu aclamado surf style. E isso pra não falar do executivo cool casual idealizado para traduzir a descontração do empreendedor carioca, que quer atuar no escritório de frente para o mar.

O homem carioca está antenado com os discursos que permeiam o estilo da moda contemporânea: camisas que falam com quem as vê, militância ecológica e ideológica. A adesão a causas é o maior dos estilos: todo mundo quer pertencer a uma fatia dos discursos plurais reproduzidos tão apropriadamente pela moda.

Não estamos mais limitados nem mesmo à ditadura do masculino. O contemporâneo nos redesenha como individuos antes dos gêneros: e é por isso que o lifestyle carioca está cada vez mais arrojado e a moda dos “meninos do Rio” mistura a praia, a periferia e o mainstream internacional.

Nunca vimos um lifestye carioca ser tão coisa de macho como agora…

Hélio Ricardo Rainho é consultor de marketing e estilo, professor de Consumo de Moda Masculina na ESPM-Rio e colunista do site SRZD.com (Sidney Rezende)